REGRAS PARA SE FAZER O POEMA VARANO

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Rotina de Malandro

Pessoas passando
                e a chuva molhando
o rio descendo
                e a chuva molhando
vai molhando o rio
                vai molhando o chão
vai molhando tudo
                é chuva de noite
                é chuva de dia
molhando o pernoite
                da velha boemia
com chuva de goles
de muitos solfejos
cheirando a fumaça
mulata que passa
com gosto de beijo
                chuva de violão
de som e mulata
batendo na lata
                do meu coração
e chove lá fora
                uma chuva que molha
e chove aqui dentro
                uma chuva que chora
que chora outro choro
um choro de banjo
                cavaco e pandeiro
é o “brasileirinho”
um velho chorinho
                que é bem brasileiro
abre-se a porta
outra vida torta
adentra o salão
e o chorinho segue
                mulatas dançando
                bebidas rolando
malandro se entregue
dou voz de prisão
não fuja, não tente
                lhe diz a mulata
                faz pose e arrebata
preso e contente
o malandro valente
                lhe dá o coração
nos braços de um anjo
o malandro é refém
                silencia o banjo
                silencia o pandeiro
começam as apostas
                só vale dinheiro
e aquele marmanjo
que vivia à toa
nos braços do anjo
encerra a noitada
não quer mais o banjo
                segura a mulata
que ele arremata
                e sai numa boa
e vai rindo à toa
                e a chuva molhando
o dia amanhecendo
                a noite findando
quem não dançou, dançou
ou já está dançando
                e a chuva molhando
                e a manhã chegando
é gente saindo para trabalhar
                e o malando voltando
para descansar
                o dia raiando
                e a chuva molhando
                molhando meus olhos
                cansados de sono
de muitos bocejos
boemia, desejos
de horas vadias
                nada a reclamar
mulatas e beijos
em bocas de orgia
acabou a folia
e o malando sadio já vai descansar.